
O êxito do filme “Anora” na cerimônia do último Oscar, tão contestado pelos brasileiros, teve várias simbologias. Como muitos, acreditei que o prêmio de melhor atriz estava entre Demi Moore e nossa Fernanda Torres; a estatueta concedida a Mikey Madison foi sim uma demonstração de que a distopia do filme “A substância” não é tão distópica assim. Hollywood ainda cultua o frescor da juventude em detrimento da grandeza e sapiência de talentos mais maduros.
Para aqueles que entraram no clima de Copa do Mundo e passaram a segunda-feira de Carnaval revoltados, pedindo revisão no VAR, sugiro que assistam ao filme do grande cineasta Sean Baker. A atuação da atriz, odiada gratuitamente por alguns, é magnética e mereceu sim o prêmio!
Anora é um filme divertido, ansioso e tem uma energia caótica, como são as coisas no nosso mundo! É ao mesmo tempo engraçado e angustiante, é daqueles filmes que, depois que terminam, ficam reverberando na nossa cabeça. E, para mim, o que ficou martelando foi a ideia de que as relações humanas se transformaram num produto. A dignidade está em segundo plano, tudo é comércio e todos nós estamos à venda, mesmo sem querer.
Mas isso é efeito colateral do “sistema” ou parte dele?
O historiador Yuval Harari, em seu best-seller “Sapiens”, escreveu que nós, Homo sapiens, conquistamos o mundo graças à nossa linguagem única. Inventamos “tudo isso que tá aí”, da felicidade à aspirina; da escrita ao audiobook; do chocolate à água diet! E sobre a economia, descreve com clareza a forma com que chegamos até aqui, com um sistema baseado na confiança no futuro, onde as pessoas concordaram em representar bens imaginários (bens que não existem no presente), com um tipo especial de dinheiro chamado “crédito”. Baseado na ideia de que nossos recursos futuros serão maiores do que os do presente. Logo, essa forma de dinheiro passou a dominar nosso imaginário e a nossa subjetividade, afinal nos possibilita gozar de prestígio e benesses sem a necessidade de ter recursos. “Mais importante do que ser é parecer ser”, não é mesmo?
O modo contemporâneo de crédito inclui não só os recursos materiais, mas também a ideia de boa gestão do tempo e da produtividade. Isso é determinante para apontar quem está ganhando e quem está perdendo nesse jogo. Mas lembre-se, o prestígio existe mesmo sem os recursos, então a corrida é para aparentar boa gestão, o que inclui todos os valores disseminados pela nossa cultura: o corpo perfeito, o procedimento estético, a viagem superexposta nas redes sociais, o carrão mais caro, a casa com porta pivotante… Tudo que parece sofisticado e exclusivo vira crédito! Mas a sofisticação e a cafonice são irmãs separadas no nascimento, um escorregão e elas se juntam novamente. Confesso que tenho dificuldade com a porta pivotante e a ideia de que é chique ter um pé-direito tão alto que possibilite a visita de um Tiranossauro Rex à minha casa.
Harari também atribui o sucesso desse sistema à Revolução Científica e à ideia de progresso. Não existe crédito sem otimismo! Que, aliás, também é comercializado… Em pó, em cápsulas ou em cursos exclusivos que, se não comprarmos logo, perderemos essa oportunidade única!
Aprendi cedo sobre o real valor das coisas. Minha mãe não deixava eu levar meus melhores brinquedos para a pré-escola, e assim era excluído das melhores brincadeiras no recreio… Até que no último dia de aula fui autorizado a levar minha coleção de veículos dos “Comandos em Ação”. Virei celebridade!
Outro dia, saindo do supermercado, vi um homem de meia-idade num desses carros esportivos raros, caríssimos, que parece um carro de corrida. Ao passar por dois homenzinhos, acelerou, fazendo um barulho diferente e causando um frenesi nos expectadores que reagiram fazendo sinais de afirmação e validando o motorista pelo fato de: ter um carro! Eles realmente ficaram excitados com a cena e quase se ajoelharam no chão para saudar o homem e sua máquina! Vivemos num mundo de valores!
Voltando aos nossos protagonistas, o conto de fadas de Ani e Vanya é, de certa forma, calcado no crédito. Para ela, a relação trouxe garantias de um futuro abundante, de uma transformação de sua realidade dura. Para ele, as garantias de ter à sua disposição habilidades práticas que não dispunha. Isso também explica o caos que se instala nas ações retratadas na metade em diante do filme.
E nesse fluxo de caixa, seguimos resolvendo (ou não) nossos problemas. Tudo depende da nossa capacidade de obter crédito e, num mundo onde tudo é transacional, mais que recursos, o que realmente importa são os valores.