1 0

Todo começo de ano é a mesma coisa: prometemos, planejamos, deixamos as expectativas lá no alto para depois dizer que o ano não foi bom. Sempre ouvi as mais diversas suposições sobre os novos ciclos que se iniciam, principalmente nos últimos anos onde a esperança foi globalizada e a ânsia por boas novas foi elevada à máxima potência. Mas qual é a magia que uma simples mudança no calendário traz? Será que temos motivos para tamanha expectativa?

Por essas razões resolvi concentrar minhas esperanças e energias em situações mais próximas à minha realidade, pois se não forem responsáveis pela paz mundial que tanto desejamos, pode ao menos, me proporcionar pequenas alegrias, que já é um calorzinho no coração! Esse texto nasceu do desejo em descrever e saborear um pequeno prazer que proporciona um alento, afinal não tem sido uma tarefa fácil ser adulto nos últimos tempos e nossos raros momentos de alegria parecem vir de charrete. Logo aqui, onde fabricamos aviões a jato e já fomos campeões com Fittipalti, Piquet e Senna.

Nosso grande poeta e rapper Emicida fez uma belíssima canção citando alguns desses prazeres. Acho ótimo não ter hora para acordar num sábado ou encontrar um Tupperware que a tampa encaixa. De fato isso é magnífico! Mas você, raro leitor, já experimentou fazer feijão?

Considero o início da minha vida adulta a partir de três momentos distintos: quando troquei sozinho pela primeira vez o pneu de um carro; a primeira vez que me arrependi por não ter repetido a sobremesa no almoço de família e quando adquiri minha primeira grande dívida. Claro que essas situações são muitas vezes involuntárias (com exceção dos boletos) e nada prazerosas. Por isso considero outro marco da vida adulta justamente quando posso responder à altura esses desprazeres. A Pandemia me proporcionou uma grande volta por cima em relação aos revezes da vida: encarei o desafio de cozinhar feijão!

Podia aproveitar esse espaço para dizer o quanto aprender coisas novas fortalece nossas conexões no córtex cerebral e estimulam nossos neurônios, fazendo com que a vida da gente seja muito mais que detectar estímulos e organizar respostas. Mas não é o caso, para isso sugiro os textos da Suzana Herculano-Houzel.

Se tratando de pequenos prazeres, afirmo que enquanto escutamos o som da água batendo nos grãos de feijão (de molho), deixamos de lado a preocupação com a matrícula do filho e a lista da escola. O som do alho e da cebola crepitando no azeite emudece aquela voz na sua cabeça te cobrando: você devia beber mais água, comer verduras e legumes, fazer exercícios e emagrecer 10 quilos. O apito da panela de pressão é música, comparado ao áudio daquele familiar no celular dizendo que você é uma pessoa ausente. E o que dizer da sensação da primeira colherada cheia de feijão com aquele caldo gostoso, bem temperado, que te fazem esquecer completamente o medo de que o dinheiro que tem na conta não dure até o fim do mês?

Os pequenos prazeres estão aí para usufruirmos! E podem ser tão velozes quanto nossos campeões mundiais de Fórmula 1, porém não negligencie sua capacidade. Afinal, ser um adulto não pode se resumir a perdoar o próximo, ganhar dinheiro, organizar bagunças, cuidar de quem ama, ganhar dinheiro, melhorar sua autoestima, saber se faz o que realmente gosta, ganhar mais dinheiro, ter uma conduta ilibada, ler mais, ganhar ainda mais dinheiro e estabelecer metas. Não! Você só precisa fazer seu próprio feijão!

Happy
Happy
100 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %


Comentar via Facebook

Comentário(s)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *